Crônica de um dia de angústia – ou de como estão quase matando o Aeroporto Jorge Amado

06:30h – Ela* acorda, vai direto pro computador. No Gtalk, Bate papo com Mascarenhas [em Sampa, a trabalho], e combinam almoçar juntos, já que o vôo [da TAM] chega ao meio-dia.

07:30h – Toma banho, café, e volta para o PC: responde e-mails, scraps, dá uma passada nos blogs dos clientes e no da empresa, e já pensa em voltar pra cama porque o dia frio e cinzento não traz ânimo pra nada. Mas só pensa. O tanto de coisa que está na listinha to do não permite esse luxo.

08:30hDinah chega para mais uma aula-arrumação de blog.

11:55h – Chega no aeroporto. Tudo parece normal. Olha na tela de informações da INFRAERO, vôo confirmado para chegar às 11:57h. Senta-se perto do desembarque e começa a ouvir os comentários: “não é este avião que está aí em cima, que já deveria ter pousado?” Resolve ir ao balcão da TAM saber. A funcionária “informa”: “Aguarde a informação no speaker, ainda não sabemos, a aeronave já deveria ter aterrissado.” [Por que ela usa “speaker” em vez de alto-falante ou serviço de som, jamais saberei].

12:05h – O “speaker” informa: “Em virtude de más condições meteorológicas, o vôo 3660 procedente de São Paulo não poderá aterrissar. Aguardem maiores informações em breve. Passageiros com destino a Salvador e conexões podem aguardar na sala de embarque.”

12:15h – Ela consegue a informação “quentíssima”: O avião já rumou para Salvador, apesar das “más condições meteorológicas” não significarem temporal, tufão, nem mesmo uma ventania. [Depois Mascarenhas contou que a pista era perfeitamente visível, pela janela do avião]. Sem previsão de quando voltaria.

12:30h – Ela volta pra casa, pra almoçar, completamente frustrada com a situação. Recebe a ligação, de Salvador: “Até discurso já fiz dentro do avião. Deve haver algum interesse explícito de acabar com o turismo em Ilhéus. E não deram qualquer informação aos passageiros dentro do avião.”

12:45h – Vôo 1777 da GOL pousa e decola sem maiores problemas. O tumulto se instala no aeroporto, com os passageiros da TAM que insistem em ser embarcados no vôo da GOL, mas a TAM assegura que o vôo deles (3661) vai sair.

12:50h – Começa a chover. Fraquinho, mas chove. E Mascarenhas liga novamente, dizendo que o avião está saindo da capital. “Mas aqui tá chovendo, não vão conseguir pousar!!!” – Parece que é somente ela que enxerga que está chovendo. Humpf.

13:50h – Ela liga para a TAM no aeroporto, e recebe a informação: Aeronave tem pouso previsto para as 14:30h.

14:00h – Liga novamente para a TAM. “O avião pousa dentro de 5 minutos.” Deixa o filhote na fila, e corre para o aeroporto. “Corre” é maneira de dizer, pois além do engarrafamento na ponte, tem um enterro. [Murphy é o amor da vida dela!]

14:20h – Chega ao aeroporto, e ouve an passant: “já tentou pousar duas vezes e não conseguiu”. Informação no guichê da TAM: O avião foi pra Porto Seguro. Tumulto instalado e generalizado. O Aeroporto Jorge Amado parece o Galeão nos tempos do apagão aéreo. Palavras nada gentis são ditas por passageiros desesperados a funcionários [coitados!] desorientados.

14:50h – Ofertas da TAM para os passageiros que não embarcaram: a) Ir de ônibus para Salvador (7horas de viagem pela BR 101) ou b)remarcar para amanhã. Questões dos passageiros sobre a segunda opção: Hotel pago pela TAM? NÃO. Garantia de que amanhã eles viajam? NÃO. Alguma coisa a fazer? NÃO. Ela ainda fica um tempo no aeroporto, tentando saber se o avião volta de Porto Seguro. Depois de muito insistir, o funcionário da TAM explode: “O avião NÃO VOLTA! ” Ela volta pra casa, tentando falar com Namorado pelo celular, e sem conseguir.

15:15h – Mascarenhas liga, de bom humor, perguntando se ela não vai buscá-lo no aeroporto… de Porto! Ela fica um pouco aliviada ao sentir que ele não está nervoso, mas só um pouco. A solução da TAM para os passageiros que deveriam descer em Ilhéus: Vir de ônibus. [6h de viagem pela BR 101].

20:45h – Mascarenhas liga, dizendo que está chegando em Itabuna. Ela está a caminho da Festa dos Radialistas, que a essa altura perdeu toda a graça e o interesse que poderia existir.

21:30h – Mascarenhas liga, dizendo que chegou em casa. Depois de exatas 12 horas desde o embarque em Congonhas.

Fim do roteiro e início do comentário revoltado.

26-09-08 004

A pessoa quer ir de Ilhéus pra Salvador. Compra uma passagem de avião com antecedência, paga caro – nunca mais uma promoção! – e no fim das contas, viaja de ônibus, sem qualquer opção. Se quisesse ir de ônibus, teria 1488 horários para escolher, leito, executivo ou comercial, pela BR 101 ou pela BA 001, e pagaria 1/3 ou menos do preço que pagou pelo avião.

A TAM não está nem aí para as necessidades dos passageiros. Alguns têm conexões, outros têm compromissos, outros estão doentes… mas todos são jogados num ônibus, ou desistem de viajar naquele dia. A certa altura da história, os funcionários desapareceram do balcão, e carregadores estavam respondendo [ou tentando] às perguntas dos passageiros.

Para os que iriam descer aqui, o desespero do “cárcere privado”, dentro de um avião das 9:30h às 15:30h, sem saber o que estava acontecendo, tendo o destino desviado duas vezes… consideração? ZERO.

Tudo isso por conta da resolução da ANAC de que pousos no Jorge Amado somente com “contato 100% visual”, sem uso de instrumentos. Clique aqui, para entender melhor a sacanagem situação. A sociedade civil até tentou se manifestar… Mas quem disse que adiantou alguma coisa?

Bom, a gente faz o que pode, né? Eu posso escrever aqui. E mostrar algumas fotos da confusão.

Desculpem, vocês que não têm nada a ver com a história. Mas o desabafo se faz necessário. Tem que ter política ou dinheiro motivando essa situação. Minha cabeça não consegue processar e entender um outro motivo. Pura maldade? Seria possível? A população de toda uma região ser prejudicada desse jeito POR QUE???? E os “nossos políticos” não fazem nada??? Um deputado federal e uma deputada estadual que parecem não ter o mínimo de “poder” ou coragem pra tomar uma atitude ou exigir uma atitude do Ministro da Defesa. Pra que servem, então???

Empresas aéreas que parecem não se importar em perder vôos numa cidade turística. Ou melhor, parecem estar gostando da situação, desejando mesmo sair daqui. Já foram demitidos 15 funcionários da TAM e 10 da GOL, aqui em Ilhéus. Além dos passageiros, o Pólo de Informática também está prejudicado com a diminuição dos vôos e com essa instabilidade, inconstância e impossibilidade de saber se vai haver vôo ou não.

Eu só queria ver se a mãe [ou filho, mulher, irmão] de um comandante desses estivesse doente e precisando viajar, se ele iria frescamente dizer que não pode pousar por “más condições meteorológicas”.

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* Sou eu, mas achei que escrever na primeira pessoa perdia a graça.

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UPDATE: A mesma história, contada de dentro do avião: Aeroporto de Ilhéus agoniza, por Roberto Aguiari.

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10 Responses to Crônica de um dia de angústia – ou de como estão quase matando o Aeroporto Jorge Amado

  1. Guy Valerio Barros dos Santos disse:

    A maioria das pessoas, não entendem ou fazem que não entendem, que as Agencias Reguladoras são praticamente autônomas, independentes de ingerências políticas.
    Político nenhum, por mais burro que seja, não toma decisões que vão de encontro à vontade do povo.
    O problema do Aeroporto Jorge Amado-Ilhéus, é puramente comercial, as empresas aéreas é que estão ‘forçando’ a ANAC a tomar estas decisões estúpidas.

  2. ANDRÉ MELO disse:

    Se é esse o motivo, pq ñ divulgá-lo??? Se o aeroporto ñ é rentável pq existe há tanto tempo??? As agência tb são comandadas por políticos e essa confusão começou com uma reportagem na “MALEDITA” de um anônimo (mentiroso ou canalha). Os nossos políticos poderiam sim, intervir nessa situação, estou vendo o Deputado Federal calado, ñ se pronuncia sobre o fato, assim como a nossa representante na Assembleia Legislativa. Se tem que fechar, que façam, mas tratar os passageiros e toda a região dessa forma é um desreipeito conosco.

  3. Paulo Machado disse:

    Masca, tenha certeza que a situacao do aeroporto é pura política, até mandado de segurança suspendendo a NOTAM da ANAC ou DECEA ou DAC ou INFRAERO ou MIN.DEFESA .. ou … é tanta sigla de tanto orgao publico para tratar de um só assunto e nao coneguem, é o velho ditado “cachorro com dois donos morre de fome”neste caso o cachorro tem varios donos, resultado – se nao morrer de fome morre de sede. Pois é, um mandado de segurança foi deferido mas alegam os responsaveis pela ANARC que nao foram notificados, vai ver esta notificacao ficou congelada e so deve aparecer depois das eleicoes municipais….., aí tudo voltará ao normal, só que o estrago ja foi feito …..

  4. Paulo Machado disse:

    Caro Valerio Barros, procure se inteirar do movimento economico da TAM em Ilheus, segundo informacoes é o oitavo melhor resultado da companhia no Brasil, sera que eles queremmesmo abrir mao deste resultado ????

  5. Anísio Cruz disse:

    Conversa fiada, Gui. Todos sabemos quem está por detrás disso: A burra idéia de que, agindo assim, ninguém irá protestar contra a construção do novo aeroporto. Burra, sim, pois nós sabemos que, ao longo de mais de 50 anos o nosso aeroporto funcionou sem problemas. Você discorda? O acidente aconteceu em Congonhas, e nós pagamos o pato. Você discorda? As pessoas estão sendo prejudicadas por falsas interpretações da lei, e os vôos que poderiam estar acontecendo, cancelados, por pura pirraça. Você discorda? Afinal, você é ilheense, ou petista?

  6. Concordo com o Guy quando afirma que a ORIGEM do problema não foi uma decisão politica. Acredito que decorreu de uma preocupação da TAM diante da análise das dezenas de acidentes nos quais suas aeronaves têm estado envolvidas. O Anísio fala sobre o desastre de Congonhas. Entretanto muitos outros têm ocorrido pelo país sem terem divulgação nacional.
    Pórem não resta dúvidas que a CONDUÇÃO do problema está transversalizada por interesses politicos conflitantes e danosos aos negócios e ao bem-estar de ilheenses.
    Em momentos como este é que ficam claros os níveis de competência dos representantes politicos da cidade. Se bem que sabemos que a grande massa que os elege não voa em aviões.
    Devemos entender que este problema dificilmente vai indignar a população que, na sua maioria, convive diariamente com outros tipos de problemas sociais. E mesmo que a população de Ilhéus se pintasse de verde e deitasse na pista do aeroporto Jorge Amado em protesto aos atuais procedimentos da TAM, esta empresa não iria mudar seus procedimentos.
    Portanto acredito que melhores resultados seriam obtidos se a comunidade usuária passasse do protesto à ação.
    Pelo que entendi do relato do Mascarenhas a GOL tem procedido de forma diferente. Usem isto.
    O mundo empresarial se move com fito na receita. Se for feito um movimento para que por um determinado período (a ser definido por vocês) não sejam compradas passagens da TAM. E sendo certo o afirmado por Paulo Machado sobre o faturamento desta empresa neste roteiro, certamente ela buscará trabalhar por uma solução. Até mesmo forçando os politicos (ineficazes) a agirem de outra forma.
    Casos como este acontecem em vários outros paises, com populações de regimes politicos e culturas diferentes. E são vistos tanto no parto quanto na morte deles os interesses financeiros.

    Guy, concordo com você serem as empresas áereas que estão forçando a barra.

    André e Paulo – Não esperem pelos politicos. Exijam respeito já da transportadora deixando de ser usuários daquelas que não lhes prestarem um bom serviço.

    Anisio – Não se iluda. Todos os politicos estão cada vez mais voltados para atender “aos grandes apelos das massas”. Ficou claro nos últimos anos que são elas que elegem. E questões afins ao transporte aéreo certamente não estão entre as maiores preocupações delas. Portanto agora ou depois das eleições a solução que virá será baseada em interesses comerciais. Por este motivo que um boicote é muito mais eficaz que um protesto.

    Antes de finalizar, acho importante informar que também sou ilheense. E eternamente apaixonado por esta cidade.

  7. Guy Valerio disse:

    Velho amigo Pitombo, você como sempre exercitando sua capacidade de analise e síntese muito bem. Enxergando muito além de meio metro de seu umbigo.

  8. Jamário Souza disse:

    Política, comércio, estratégia empresarial? Ainda não está explícito o real motivador para esse caos instalado de maneira covarde e inconseqüente no pequeno Jorge Amado. Parabéns, seu texto retratou de maneira emocionante a crise (aérea, turística, econômica, comercial, empresarial, política) ilheense. Infelizmente estamos à mercê dessas atitudes inexoráveis e temos que tentar um pouco de sorte para viajar com conforto e rapidez. Para nós que dependemos do funcionamento eficaz do aeroporto de Ilhéus sobra insatisfação e falta a ação participativa das autoridades locais, em tertúlia, para ajudar a retomada das atividades que a região precisa. Talvez se devolvermos seu antigo nome, Aeroporto Brigadeiro Eduardo Gomes, tenhamos uma ajuda “dos céus” para resolver esse vergonhoso problema.

  9. Ronald Mollie Callazans disse:

    Não modificaria nenhuma palavra que você colocou, Jamário. É uma vergonha pagar para TENTAR receber conforto e comodidade. De fato, é preciso mais participação das autoridades. Você trabalha na área comercial de alguma dessas companhias? Compartilhe mais conhecimento conosco! Anabel, você descreveu de modo fantástico todo o caos de Ilhéus.

  10. Jamário Souza disse:

    Senhor Callazans, não laboro na área comercial de nenhma companhia aérea, mas é sempre bom estar atualizado sobre elas. Não precisamos ir muito além para ouvir desse casos de Ilhéus. Sou estudante do curso Línguas Estrangeiras Aplicadas às Negociações Internacionais da UESC (o qual foi abrilhantado pela participação de uma palestra ministrada pelo senhor Mascarenhas, e está neste blog). Através do trabalho deste blog sente-se um pouco do que está acontecendo a pessoas tão próximas de nós, como a Anabel. Acredito que com o trabalho e a visão de cidadã que ela tem poderemos nos nortear com um pouco mais de precisão através desses pequenos fóruns nos quais podemos realmente falar o que pensamos. Obrigado pelos elogios! o Mérito é de minha escola…

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