Para conhecer Rui Rocha

O Agrônomo e Mestre em Meio Ambiente Ruiimage Barbosa Rocha é um dos maiores defensores do meio ambiente regional, principalmente das nossas reservas de Mata Atlântica. 

Algumas vezes incompreendido, especialmente quando chama a atenção para os cuidados que devem ser tomados quanto  aos aspectos e impactos ambientais do Projeto Porto Sul, Rui tem sido alvo de críticas contundentes e até desrespeitosas.

Numa entrevista disponível na internet e concedida em 2005 ao Museu da Pessoa, Rui fala da sua vida, das suas certezas, dos seus planos e acima de tudo da sua grande preocupação com o meio-ambiente. É muito interessante que esta entrevista seja lida, para que possamos conhecer o ideário de Rui e assim podermos entender melhor toda a sua luta na defesa do meio-ambiente regional, luta esta que ele já vinha travando mesmo antes de se pensar em Projeto Porto Sul. 

Sobre sua origem e a relação urbano/rural

Minha relação com cidade, até com a cidade de Valença que é uma pequena cidade sempre foi um pouco traumática também, porque nós tínhamos acesso a uma fazendinha no estuário de Valença com Morro de São Paulo, que tinha exatamente esse contexto de manguezal, restinga, floresta. A gente para ir à praia passava por dentro de uma floresta. E a gente passava quase quatro meses nesse lugar, uma casinha na beira do estuário. E quando eu voltava para Valença para estudar, uma cidade de 15 a 20 mil habitantes, me chocava chegar na cidade depois de passar quatro meses no meio do mato e ver carros, fusquinhas passando na ponte do Rio Una. Quer dizer, a cidade já oferecia um certo impacto. Dessa vida um pé no meio natural, um pé no meio da cidade. Mas aí ir para Salvador foi mais choque ainda […] Salvador já era uma cidade de porte de 1 milhão de habitantes. Eu fui estudar em um colégio particular jesuíta, um colégio que tinha a igreja maior do que a igreja da minha cidade. Então foi um choque e eu, a partir daí ia lidar com a burguesia, a classe alta, a classe média alta de Salvador ligada a política, ligada a indústria, ligada a construção civil. Então isso também foi um choque de contexto sócio-cultural muito forte. […] Eu estou vindo de uma cidade pequena, inexpressiva, ninguém conhece Morro de São Paulo. Meus amigos de infância, meus amigos de escola em Salvador passavam férias na Disneylândia, em Terra do Fogo. Sempre em lugares internacionais que apareciam na televisão. E o meu lugar de férias, de veraneio era um lugar que ninguém conhecia. Morro de São Paulo só nos anos 80 é que passa a ser um lugar conhecido nacionalmente. Então isso é, por isso é que eu te falo que eu comecei a me perceber culturalmente dentro da minha terra, meu lugar, só um pouco mais para frente. Quando eu começo a ver que essa origem tem um significado muito especial.

Sobre a formação e consciência política:

Em Valença eu estudava em uma escola pública junto, inclusive, com filhos de pescadores da região, né? Junto com filhos da classe média, é uma coisa bem misturada. Não havia ainda essa coisa de escola particular separando os ricos dos pobres ou a classe média dos pobres. Então a gente tinha uma escola plural onde tinha gente da classe média, gente da roça que migrou para a cidade recentemente. Ou filhos de pescadores daquela área. E foi uma experiência, claro, com muita complementação do ensino em casa, da minha mãe, mas criando uma boa base de ensino primário fundamental sobre leitura, né? E meio que antenado também com a política nacional, no que estava acontecendo com o país na época do regime militar. Os meus pais sempre foram pessoas interessadas em política e críticos. Então eu acabei vivendo também essa realidade não só de uma formação escolar em uma escola pública plural, mas também uma formação em casa, digamos, de um nível de consciência crítica com relação à situação do país, a situação do mundo.

[…]

Sobre a formação universitária

E eu fui seguir um pouco o caminho de meu irmão mais velho, Pedro, que fez agronomia. Eu gostava muito desse contato com a natureza, com terra e etc, então a gente seguiu. Mas na verdade eu estava buscando exatamente isso, contato com a natureza. Era aí que eu me identificava, era aí que a minha existência era plena. Então eu queria ter uma formação profissional ligada, talvez eu tivesse feito alguma coisa ligada ao mar. Oceanografia, engenharia de pesca ou coisa parecida, porque nossa vida sempre foi muito ligada a isso. Mas como a Bahia não tinha nessa época nenhum curso de biologia marinha, e também a gente tinha que ter uma visão meio aplicada, nós não tínhamos muita posse. Então tinha que ter uma visão mesmo de onde é que eu vou trabalhar. […] Mas eu fui fazer agronomia no recôncavo, nessa cidade de Cruz das Almas, mas sempre pensando no mar, pensando no Morro de São Paulo.

Sobre o IESB e a chegada na região cacaueira

Então, IESB é uma ONG que começou nessa época, em 95 e é uma sigla imensa. É Instituto de Estudos Sócio-Ambientais do Sul da Bahia. Nome que é difícil até das pessoas saberem o que é que significa. Mas hoje é uma ONG de referência no Sul da Bahia o IESB. Produziu muita coisa em pouco tempo. Está fazendo 10 anos agora mas já tem experiências em Ecoturismo, em conservação da biodiversidade, pesquisa e trabalho prático em conservação da biodiversidade. Unidade conservação, sistemas agro-florestais, certificação. Na verdade é um grupo que hoje deve ter uns 20 pesquisadores profissionais fazendo pesquisa e ao mesmo tempo principalmente trabalhando diretamente com conservação da Mata Atlântica.  […] E assumi um trabalho chave na instituição que era atuar em políticas públicas para a conservação da floresta. Então quando eu cheguei lá eu chego exatamente no meio da mais séria crise. Talvez uma das crises rurais mais sérias do Brasil, talvez na América que foi a crise do cacau com a vassoura-de-bruxa, com a doença da vassoura-de-bruxa e ao mesmo tempo queda de preço do cacau no mercado internacional, junto com estiagens prolongadas assim, muitos anos sucessíveis de pouca chuva. Também alta de juros, o sistema de crédito brasileiro radicaliza com altas taxas de juros. Então aquela região entra em um colapso econômico terrível e eu chego exatamente nesse momento. A crise começa em 89 e em 95, 96 é o momento em que aquela sociedade entra no seu momento mais baixo. E é exatamente aí que eu chego. E lidar com Mata Atlântica nesse contexto de crise regional, forte desemprego, 200 mil trabalhadores rurais desempregados com a crise do cacau ocupando as periferias das cidades, as áreas de manguezal de encosta. Invadindo fazendas de mata, quer dizer, as medidas e grandes fazendas de florestas foram ocupadas por sem terra. A atividade madeireira entrando fortemente nas cidades. Então cidades que antes não cortavam madeira, os fazendeiros de cacau não admitiam tirar madeira de suas fazendas e de uma hora para outra eles passam a vender madeira escandalosamente. E então as matas começam a ser cortadas de todo o lado por assentamentos de reforma agrária, expansão da pecuária, porque o cacau já não valia então vamos botar pasto aí.

Para continuar lendo muito mais, acesse a entrevista na sua totalidade.

Para concluir, quero reafirmar a minha posição favorável ao Projeto Porto Sul, desde que algumas condicionantes ambientais sejam estabelecidas para que sejam cumpridas pela Empresa responsável pelo Projeto, especialmente que a BAMIN  se responsabilize pelo manejo e conservação da Mata da Esperança, transformando-a numa área de lazer e num laboratório vivo de Educação Ambiental.

Carlos Mascarenhas, Economista e Analista de Sistemas.  Ilheense, antes de tudo.

carlos.consultic@gmail.com

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One Response to Para conhecer Rui Rocha

  1. […] Porto Sul, Realidade Regional por Bel Marido escreveu um post no Blog da Consultic sobre Rui Rocha. E intitulou “Para conhecer Rui Rocha”. Ele “conhece” Rui en passant, Ilhéus é uma cidade […]

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