ILHÉUS – Século XXI

1. Síntese histórica

A capitania de São Jorge dos Ilhéus teve o seu núcleo inicial na Vila de São Jorge dos Ilhéus, implantada em 1531 no atual Outeiro de São Sebastião, local estratégico que propiciava fácil defesa aos colonos contra os selvagens locais e também contra os corsários que perambulavam pelo litoral recém descoberto.

Os primeiros registros de atividade econômica local remontam ao ano de 1570 com a implantação de diversos engenhos de açúcar e ao longo dos séculos XVII e XVIII, têm-se conhecimento da diversificação da produção no setor agrícola com lavouras de cana de açúcar, algodão e milho e no segmento extrativista com a exploração de madeiras e pesca.

Durante o século XIX, a lavoura de cacau espalha-se por toda a região. Acompanhando a formidável expansão do cacau observa-se a implementação da mono cultura, interiorização habitacional e expressiva explosão demográfica do município que salta de 7.800 pessoas em 1872 para 63.000 em 1920. Em paralelo, as exportações de cacau atingiram a marca de 220.000 toneladas no período 1918/1922.

Não poderia ser diferente, nesse período processam-se profundas transformações na economia regional com a absorção de enormes contingentes populacionais oriundos da região nordeste e o sepultamento completo da policultura de subsistência pela monocultura do cacau, que passa a dominar dessa forma, o cenário econômico de todo o estado.

Entre os anos de 1913 e 1935 Ilhéus dá um verdadeiro “salto” de progresso, registrando-se neste período a implantação da navegação marítima e operação do porto do rio Cachoeira, a construção da estrada de ferro, a ligação rodoviária Ilhéus – Itabuna e o início do transporte aéreo regular com operação de rotas pela Panair do Brasil.

A despeito do contexto econômico da cacauicultura ser sempre descrito como “de crise”, seja pelas condições climáticas, seja pela flutuabilidade de preços no mercado externo, o desempenho da lavoura revelou-se excelente entre os anos de 1.950 e 1.985, período em que o município ampliou consideravelmente a sua infra-estrutura e passou a empreender significativas mudanças no seu perfil econômico e social.

A partir da segunda metade da década de 80, entretanto, vários fatores – quase que simultaneamente – atingiram duramente a lavoura cacaueira. As políticas de crédito e comercialização mudaram drasticamente e o advento da praga denominada “vassoura de bruxa”, provocaram radical mudança no panorama sócio econômico de toda a região.

Das fazendas em crise, legiões de trabalhadores desempregados buscaram as cidades, sobretudo no caso de Ilhéus pela localização á beira mar, invadindo áreas preservadas e criando verdadeiros bolsões de pobreza, desprovidos de qualquer infra estrutura básica, drenando esforços e recursos governamentais para a solução dos problemas surgidos.

2. Um olhar para o futuro

É necessário que encaremos a verdade de frente e tenhamos uma forte consciência de que o esplendor do ciclo do cacau está encerrado e não voltará.

Vivemos num mundo em constante mutação. Outros países produtores ganharam mercados e mesmo que a região cacaueira superasse as dificuldades já referidas, a nossa produção não sustentaria a hegemonia de décadas atrás. Querer reviver o Eldorado do cacau é um erro que não podemos cometer.

Felizmente, por conta desse mesmo dinamismo mundial, um grande leque de oportunidades se abriu para a microrregião que deve ter Ilhéus como cidade – pólo: Turismo, indústrias, serviços, importação e exportação, podem ser âncoras de um novo período de plenitude, mais justo, sustentável e suportado em bases sólidas e bem pensadas.

O desafio que isto representa está muito relacionado com o exercício da cidadania. As lideranças políticas e empresariais não podem se concentrar num maniqueísmo pouco inteligente: sou a favor e quem for contra é retrógrado, sou contra o complexo multimodal de transportes e quem é a favor é predador ambiental, sou contra a alternativa X e a favor da alternativa Y, isto porque atende aos meus interesses pessoais e aos objetivos políticos e econômicos do meu grupo. O exercício da cidadania exige uma postura republicana no respeito e também na prática do que significa república: forma de governo em que o estado se organiza de modo a atender o interesse geral dos cidadãos.

É imperioso que abandonemos o enfoque do “não pode” e passemos a debater, de modo republicano, “como pode”, respeitando-se o meio ambiente e buscando atender ao interesse coletivo. Para o equacionamento das questões que interessam á nossa região torna-se indispensável ponderação, equilíbrio e, sobretudo, competência. Nessa hora a paixão, sectarismo, acomodação ou açodamento, são péssimos conselheiros.

Esta é a idéia que está aqui nos itens seguintes sendo explorada, esperando que elas instiguem o saudável debate de tudo aquilo que represente benefício para Ilhéus e micro região.

3. Turismo

“A indústria sem chaminés” está entre as atividades econômicas que mais geram empregos, com um diferencial: O custo de cada emprego gerado pelo turismo é substancialmente menor do que os investimentos exigidos por qualquer outra atividade industrial.

Mas isso não cai do céu!

São dádivas do céu, as nossas praias, o clima, a exuberante beleza da região e a gastronomia variada. Para desfrutá-las, o turista exige, bons hotéis e restaurantes com serviços adequados e tarifas competitivas, facilidades de acesso por terra, mar e ar, segurança, limpeza, garantia de assistência médica nas emergências, artesanato que lhe permitam aquisição de recuerdos etc.

Temos um bom Plano Diretor de Turismo e o Poder Público e a iniciativa privada estão aptos para implementar suas ações e monitorá-las em regime permanente?

Temos propostas de roteiros diversificados que mantenham o turista como hóspede satisfeito durante o maior tempo possível?

E dentro desse contexto, como conservar o meio ambiente numa visão holística de conservação e uso das dádivas do céu que de graça recebemos?

4. Pólo Industrial

Ao falar deste vetor de desenvolvimento, logo nos lembramos da indústria dos derivados de cacau, do mais recente Pólo de Informática e da ZPE, em fase incipiente de implantação.

As indústrias de derivados de cacau e o Pólo de Informática têm chance de serem revitalizadas e expandidas?

A tímida industrialização de alimentos pode ser expandida deixando de atender apenas ao consumo local, partindo para a conquista de outros mercados á níveis nacional e internacional?

Quais são as outras vocações naturais? Elas existem? Estão estudadas ou caberia aprofundar uma prospecção?

E tudo isto, tendo sempre presente a nossa convivência com o meio ambiente e a diretriz que a tudo deve permear: Como fazer para que esta relação seja saudável e contemple a visão republicana do interesse e bem estar dos cidadãos.

5. Ferrovia e Porto Sul

Parodiando um velho sucesso da música popular: Um não existe sem o outro.

Sob o aspecto investimento, são as duas maiores e mais impactantes âncoras interessando ao desenvolvimento de Ilhéus.

As cargas de minério de ferro e a produção agropecuária do oeste baiano transportadas pela ferrovia chegarão ao porto de Ilhéus e daí partirão para o Brasil e para o mundo, e não é sonho pensar, que parcelas desses insumos primários deverão ser processados aqui mesmo agregando valor e criando trabalho e renda na região.

Em contrapartida, os opositores têm todo o direito de questionar: E as agressões ao meio ambiente? e o sacrifício da atmosfera bucólica do litoral norte? E os engarrafamentos? E as cargas que não serão suportadas pelos pavimentos das nossas ruas estreitas? Existem dezenas de questionamentos, alguns pertinentes e outros, a maioria, refletindo desconhecimento real dos problemas que acompanham as grandes intervenções de engenharia e o tratamento dado ás mesmas.

Há quase três décadas vivemos numa democracia que, apesar de tropeços, está sendo continuamente melhorada. Liberdade de expressão e o debate de idéias são os pilares dos regimes democráticos. Os questionamentos devem ser colocados e exaustivamente debatidos, compensações e mitigações devem ser equacionadas para cada empreendimento e á implementação delas deve ser dada a mesma atenção e prioridade com que são tratados os empreendimentos em si.

Um dos processos mais belos da participação da sociedade na definição do seu destino ocorreu quando cerca de meio século atrás, franceses e italianos decidiram sobre o uso de usinas nucleares para a produção de energia elétrica.

Os franceses optaram pelo uso de usinas nucleares e definiram compensações e mitigações que incluíram até a requalificação profissional dos mineiros que trabalhavam nas minas de carvão, desativadas com a opção nuclear.

Os italianos optaram por um país desnuclearizado.

São países vizinhos e ambos convivem em paz e felizes com as opções escolhidas para a geração de energia elétrica.

Embora vivenciemos épocas totalmente diferentes o boom de desenvolvimento ocorrido nos anos 20/30 do século passado poderá se repetir numa exponencial dimensão. O povo de Ilhéus tem de assumir a definição do seu futuro sob pena de ver aplicado a si o velho provérbio da sabedoria oriental: Não lamente, chorando como uma criança, o que não soubeste defender como homem.

Franklin Albagli

Engenheiro Civil e Ilheense

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One Response to ILHÉUS – Século XXI

  1. Mascarenhas disse:

    Franklin:

    Tem uma música de Paulo Diniz, da qual você deve se lembrar pois é do nosso tempo, chamada “Ponha um arco-iris na sua moringa”, que tem uma frase que cai como uma luva neste seu artigo: “É LÚCIDO, É VÁLIDO E INSERIDO NO CONTEXTO”.

    Parabéns.

    Carlos Mascarenhas

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