Consistência, credibilidade e veracidade das notícias divulgadas nos blogs

24 fevereiro, 2009

Sobre o caso da advogada Paula Oliveira (me recuso a dar adjetivos, a essa altura todos sabem a quem me refiro), muito se falou, muito se escreveu, muito se supôs… e o final da história parece ser triste para ela. Disso eu nunca duvidei, pois de qualquer maneira ela seria vítima: ou de neonazistas ou de si mesma, mas sempre seria vítima.

Mas nessa história toda, que começou com um post do jornalista Noblat em seu blog, pode-se perceber o poder de um blogueiro, como bem colocou o Mr. Wagner no seu Blog de Guerrilha. Nós, da Consultic,  que trabalhamos disseminando a idéia da comunicação via blogosfera, avaliamos como muito sensata a palavra do Mr. Wagner. Transcrevemos aqui,  com o desejo de que essas reflexões toquem fundo em quem tem e lê blogs.

“Não quero focar no que alguns podem considerar erro jornalístico e nem condenar o Noblat, entrando na questão de checar ou não as informações. Isso é assunto para um outro blog em outro horário.

Na ótica guerrilheira, foco desse blog, só quero levantar questão de “informação se espalhando”, de influenciadores versus influenciados, de “créditos de confiança” e etc.

Vejam o caso da brasileira que declarou ter sido atacada por neo-nazistas suiços, por exemplo. Tudo começou com um email recebido por um blogueiro em seu celular (como por ele mesmo explicado aqui: ). Este email gerou o primeiro relato publicado no Brasil sobre o caso Paula Oliveira, ou o “furo em primeira mão no blog” (veja aqui).

Pois bem, este furo, pelo poder de influência do blogueiro que o publicou rapidamente chegou na grande mídia. Logo em seguida no governo, na comissão de direitos humanos da ONU e também se transformou na conversa preferida nos “bebedouros da firma”, nos salões de cabelereiro, nas mesas de bar. E pela sua força na mídia e nas ruas alimentou ainda mais as discussões na web, parindo comunidades no Orkut e posts indignados.

Uma bola de neve de imensas proporções. Proporções tão grandes que se a Suiça não fosse um país tão neutro e bem resolvido, certamente teríamos aí o primeiro case de “incidente diplomático” causado pelo poder de um blogueiro.

“Blogueiro”: um indivíduo (com qualidades e defeitos) que decide o que posta ou não, sem o olhar de um editor ou de um “conselho editorial”, quase sempre sem a ajuda de uma “segunda opinião”. Um cara praticamente sozinho com sua consciência e experiência que filtra os emails de conhecidos e desconhecidos, julgando sumariamente se aquele conteúdo é válido para entrar na conversa diária que leva com seus importantes leitores.

O sonho de todo mundo lidando com propaganda e pensando nestes novos paradigmas de comunicação é criar uma bola de neve com iguais proporções para a sua campanha. E com este “case suiço” posso ilustrar algumas visões pessoais que tenho sobre este sonho:

Blog tem força para influenciar a mídia, não as conversas no cabelereiro. Se você quer chegar no povão semeando algo em blogs, mire na mídia. Uma coisa que “está bombando na blogosfera” muito provavelmente está sendo ignorada nas ruas. Quem acredita nisso está assumindo que é o centro do universo, quando na verdade nós é que estamos na periferia. O “centro do universo” ainda é o Jornal Nacional.

– Um blogueiro só vai se deixar levar pelo que você quer semear se aquilo traz algum benefício para a sua vaidade/reputação.

– Não citei o benefício monetário no item anterior, repararam? O blogueiro pode até publicar algo em troca de grana, mas aí a chance da sua bola de neve continuar rolando diminui bastante. A grande mídia só se deixa levar por um blogueiro se ele tem credibilidade. Blogueiro que vende opinião não tem credibilidade. Pelo menos não com pessoas inteligentes.

Quanto mais credibilidade o blogueiro tiver e quanto mais benefícios a sua história oferecer, menos barreiras ela vai enfrentar para ser replicada na grande mídia. Chegando em alguns casos ao absurdo de sequer ter a sua veracidade checada.

“O poder de um blog não está em quantos visitam, mas sim em quem visita”. É impressionante ver como a turma de “social media” adora replicar esta frase de efeito (muitas vezes para justificar para um anunciante porque aquela citação num blog de 200 vistas/dia é “legal”), mas na prática ignora isso, quase sempre propondo ações que em vez de seduzir o blogueiro pelo benefício de reputação acabam se revelando latões de lixo para jogar a sua credibilidade fora.

[]´s Mr Wagner”

Este post estava pronto, esperando revisão para ser publicado, quando vivi algo muito semelhante em termos de notícias inverídicas divulgadas, aqui em Ilhéus.

Estive no centro da cidade no final da tarde e confesso que fiquei assustada com o pânico da população. A notícia de que “está vindo um arrastão aí” fazia o povo correr e os lojistas baixarem as portas. E me vi em maus lençóis. De salto alto e com o joelho estourado por conta da condromalácia patelar, raciocinei rápido: Não vou correr; se quiserem me “arrastar”, arrastam, porque correr vai ser um prejuízo maior. Então, bem calma, continuei o percurso que precisava seguir.

Ia esperar meu pai em frente à banca de revistas de Joãozito, defronte ao Ed. Misael Tavares. Do batente e relativamente protegida atrás dos expositores de revistas, pude ter a noção clara das coisas. As notícias chegavam a alguém por celular, e essa pessoa saía correndo, apavorada. Instantâneamente outras corriam também e o tumulto se instalava. Minutos depois, tudo calmo novamente. Até alguém correr de novo. E em todo o tempo que fiquei ali não aconteceu absolutamente nada a não ser o pânico gratuito repassado de um para outro, quem sabe com o motivo de ter o que contar depois.

Entendi que era terrorismo, sabe Deus vindo de quem, e com que intenção. O fato é que NÃO ACONTECEU NADA além do assassinato do traficante na noite de ontem. Mas o telejornal local e sites jornalísticos  regionais noticiaram “saque no comércio“, “arrastão no centro, vindo do Malhado e da Conquista“,  e até agora, salvo este posicionamento não identificado neste site, ninguém desmentiu as notícias.

Nós blogueiros precisamos ter muito cuidado com o que divulgamos. Jornalismo sério é caro. Custa tempo de checagem da informação e pode fazer a credibilidade do blogueiro rolar escada abaixo e ainda descer pelo ralo do quintal. E mesmo quando não é jornalismo, que é o meu caso, o que escrevemos aparece nos resultados de busca no google, e quem nos lê toma como verdade absoluta o que escrevemos com tanta segurança.

Anabel Cavalcanti. Comunicóloga, blogueira e ilheense de coração.


Sobre direitos e posturas

17 outubro, 2008

Não sei quantos leitores chegaram a ver o post publicado hoje cedo, e que tirei do ar alguns minutos depois.

Eu havia copiado trechos de um determinado post, dando TODOS os créditos e fazendo um comentário (concordando e elogiando) sobre o assunto.

Qual não foi a minha surpresa quando a autora do post (que na verdade era uma tradução de um post de um blogueiro americano) me manda um comentário dizendo assim:

“Olá. Agradeço a menção, mas eu não dou licença para que copiem meu conteúdo na íntegra – isso prejudica minha indexação, e é ruim para você também.
Por favor, deixe só um trecho aqui, e as pessoas podem seguir o link para ler o resto do post no meu blog (o que é o justo, já que fui eu quem escrevi o texto, né?); ou apague meu texto. Qualquer das duas opções está bem para mim.”

Mais do que imediatamente respondi via e-mail dizendo que iria alterar o texto, e ainda cheguei a fazê-lo. Fiz porque acredito que as pessoas têm o direito de se posicionar sobre quaisquer assuntos, e eu – definitivamente – não sou de briga. (Pequeno detalhe: o texto não estava copiado na íntegra).

Minutos depois, chega uma resposta ao meu e-mail, dizendo: “a maioria das pessoas que copiam (sic) meus textos me insultam (sic)quando eu faço um pedido como esse e se negam (sic) a resolver a questão. É uma alegria encontrar uma pessoa decente e educada como você.”

Ainda acrescentava que se importava com a indexação nos motores de busca (google e afins), coisa que faz o blog dela estar no topo de sei lá quantas listas. Achei, então que deveria expor a ela – e a vocês, que lêem este blog,  o que penso sobre o assunto.

Em primeiro lugar, não encaro a internet como “terra de ninguém”. Prefiro enxergá-la como um “não-lugar” (concordando com Pierre Levy) onde todos podem buscar/transmitir informações e crescerem com isso. É claro que respeitando TODOS os direitos dos demais, incluindo a propriedade autoral. O site da Creative Commons dá diversas opções de “proteção” de publicações, e eis como me incluo:

Creative Commons License
Quer ler? Eu deixo! by Anabel Cavalcanti está sob licença de Creative Commons .
Em outras palavras:
Você pode reproduzir, desde que cite expressamente a autoria, não altere o texto e não tenha fins comerciais.

Copiar um texto ou parte dele dando o devido crédito com link para o artigo original é essencial. Inclusive oriento os blogueiros a quem dou assessoria e aos que convivem comigo que tomem muito cuidado com isso – respeitar o escrito alheio, nunca deixando de informar a fonte, e, se possível, informar que vai usar o texto, pedindo permissão para isso. Mas esse pedido de permissão (que nunca me foi negado, diga-se de passagem) vejo apenas como uma cortesia, uma delicadeza, não uma obrigação. Pois se publico qualquer coisa na internet, quero mais é que leiam, e se copiarem é porque gostaram, o que me deixa feliz.

Errei – pela primeira vez não pedindo permissão explícita – e para me redimir, retirei completamente o post do ar. Ainda que na verdade, o texto “dela” fosse uma tradução de um outro blog. E me pergunto: Será que o autor a quem ela traduziu deu licença explícita para isso? Não sei. Nem vou procurar saber. Não vou nem por brincadeira linkar o referido blog aqui.

Essas coisas acontecem, chateiam, mas nos permitem aprender a cada dia. E por isso estou repartindo com vocês a minha experiência de hoje. (Por favor, alguém me lembre qualquer dia desses de falar sobre ganhar dinheiro com blogs).

Caso queiram reproduzir qualquer coisa publicada por mim neste blog ou em quaisquer dos meus outros blogs, é só colocar entre aspas, dar o crédito, colocar um link e não alterar. Pode comentar, criticar, pode até elogiar. Só não pode é esquecer que nenhum conhecimento nasce do nada. Todos nós sempre partimos de algum ponto, e quanto mais longe chegarmos, melhor será para todos.